07

Abr 2020

Dia dos moinhos

O que é um moinho?

O termo moinho deriva da expressão latina «molinum», de «molo», que significa moer, triturar.

Um moinho é um engenho composto por mós que se movem por ação de uma força motriz, como a água e o vento, e tem como função triturar grãos de milho, trigo ou outros cereais para transformá-los em farinha.

Em Monchique, a abundância de água e a forte cultura cerealífera levaram à exploração de vários moinhos de água, que se encontravam espalhados por todo o concelho, sobretudo junto a ribeiras e riachos, mas também de moinhos de vento, que se situavam em zonas de terreno um pouco mais elevadas, os chamados outeiros.

De acordo com Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Jorge Dias, os moinhos de água apresentam duas variantes distintas, que se distinguem pela posição do seu eixo (ou veio). Assim, nos moinhos de rodízio os eixos são verticais, enquanto que nas azenhas os eixos são horizontais. (Figura 1).

No concelho de Monchique predominavam os moinhos de rodízio, embora também tivessem existido algumas azenhas, tendo em conta as diversas fontes que lhes fazem referência.

 

Figura 1 – Diferença entre rodízio e azenha.

 

Resenha histórica sobre os moinhos de Monchique

Até à sua definitiva elevação a concelho, em 1773, Monchique integrava o extenso território de Silves e aparecia sempre designada como «lugar», o que dava a ideia de se tratar de uma povoação de importância relativa.

No entanto, pelas caraterísticas geográficas, agrícolas e socioeconómicas que possuía, desde cedo a localidade começou a ganhar relevo face a outros aglomerados urbanos e chegou ao século XVI como um dos povoados mais importantes da região.

Henriques Fernandes Sarrão comprova esse prestígio, ao situar Monchique «no vale de duas serras altíssimas», com uma população composta por «trezentos moradores» e ao apresentá-la como sendo um local «muito ameno e aprazível, de muitas águas frigidíssimas e boas, de muita caça e montaria. Todo é cercado de pomares deleitosos, em que há castanhas e nozes, peras, maçãs e outra muita fruta, tem muitas vinhas, muita criação de gado, muito mel e cera e pão, e frescos bosques, regados de perenes fontes e saudosas ribeiras, em que estão muitos moinhos, e pisões». (GUERREIRO, 1983, p. 154).

Uma das primeiras referências aos moinhos de Monchique surge nas Memórias Paroquiais de 1758. Este documento constitui o resultado de um inquérito realizado a pedido do Marquês de Pombal, que foi direcionado a todas as paróquias de Portugal e que pretendia obter informações sobre o estado das localidades após o terramoto de 1755.

Assim, relativamente ao lugar de Monchique o documento faz alusão à «inexplicável abundância de água» que corre em toda a serra e que dá «nascimento a muitos rios, sendo de principal corrente a que nasce na fonte da Foia, que logo em pouca distância faz moer muitos moinhos e apisoar muitos pisões».

Já no Alferce, o pároco responsável pelo inquérito informa que, em 1758, o lugar «tem sete moinhos e três pisões».

Segundo José Rosa Sampaio existiram nesta freguesia o Moinho de Baixo, Moinho Velho e Moinho da Zambujeira e outros engenhos situados na zona do Cancino, Foz do Vale, Oliveira e Nogueiras. (SAMPAIO, 2010, p. 25).

As Posturas Municipais de 1793, que regulamentavam os deveres públicos dos munícipes, constituem outro importante registo acerca da influência destes mecanismos no concelho. O documento apenas faz referência aos «moinhos do Banho», na ribeira do Barranco e ao «moinho da Arrugela», na ribeira dos Casais, mas dispõe de muitos outros artigos direcionados aos moleiros e atafoneiros, o que leva a crer que essas fossem profissões já com um certo relevo no concelho.  O capítulo 37.º impunha que «todo o official mecanico ou qualquer arte que costuma aver exame seja obrigado a ter carta de Examinação pasada pella Camara sellada com o selo della», onde se incluíam os moleiros, atafoneiros, alagareiros de azeite e tecedeiras e o capítulo 65.º dedica-se aos moleiros, atafoneiros e carretadores.  (GASCON, 1955, pp. 181 – 193).

Em 1841, João Batista da Silva Lopes ao descrever o concelho de Monchique, informa que o milho é uma das culturas com maior produção local, em detrimento do trigo que existe em pequena quantidade, sendo necessário importar uma boa parte do Alentejo.

O historiador acrescenta ainda que nos limites do concelho «brotão a todos os cantos nascentes de agoas férreas e communs em tal abundancia, que formão as caudalosas ribeiras da Perna da Negra, do Farelo ou Carriçal e do Banho e Odelouca», as quais «são engrossadas com vários arroios e regatos, fazem moer alguns moinhos, e se aproveitão regando diversas terras». (LOPES, 1841, p. 247).

O Inquérito Industrial de 1881 apurou a existência de três estabelecimentos industriais em Monchique: um de destilação de aguardente, um de lanifícios e outro de pisões. A fábrica de lanifícios, fundada em 1870, pertencia a Francisco do Carmo e situava-se na Ribeira da Mata-Porcas e a indústria dos Pisões foi fundada em 1877 e tinha apenas um operário. A localização desta última e respetivo proprietário não era conhecida, mas Isabel Carneiro acredita que por se tratar de «uma atividade ligada à indústria têxtil é provável que houvesse relação com Francisco do Carmo e que estivesse localizada – dada a proximidade e topónimo – na zona do Barranco dos Pisões». (CARNEIRO, JM, 1999).

De facto, o sítio denominado Barranco dos Pisões tem este nome pelo facto de aí terem funcionado muitos pisões, ou seja, engenhos rudimentares movidos a água, utilizados no acabamento dos trabalhos saídos dos teares, que tinham como função retirar a gordura dos tecidos e dar-lhes mais consistência, apisoando-os.

Na primeira metade do século XX, José Gascon refere existirem «ainda, de construção bastante antiga e rudimentar, diversos moinhos de água e de vento, que já deveriam ter sido substituídos pelo menos por uma, mas boa, fábrica de moagem». (GASCON, 1955, p. 330). Em 1938, o mesmo autor informa sobre a coleta de 25 «moinhos ou azenhas», que provavelmente corresponderiam aos que ainda estavam em funcionamento no concelho nesse ano. (GASCON, 1955, p. 326).

A partir do «Inquérito às Explorações Agrícolas do Continente», publicado pelo INE em 1952, percebe-se que o número de moinhos diminuiu ligeiramente, uma vez que foram consideradas duas fábricas de moagem, um moinho de vento e 20 moinhos de rodízio. (SAMPAIO, 2010, p. 22).

Na década de 70, o «Guia Comercial e Industrial do Algarve», para os anos de 1974-75, faz alusão às «azenhas» de Clementina Pinto, situadas na Brejeira, de José Duarte e dos herdeiros de José Nobre Duarte, assim como às «moagens» de António Nobre Amado e Mário Poucochinho, em antigos moinhos. (SAMPAIO, 2010, p. 26).

Na década de 80 há registo de dois moinhos ainda a laborar com motor a diesel. Em 1987, um artigo no Jornal de Monchique intitulado «Moinhos na mó de baixo», dava conta do Moinho na Ribeira do Banho como sendo o último dos muitos moinhos hidráulicos que, em tempos idos, abundaram na zona de Monchique. Situava-se ao fundo do Paraíso e encontrava-se «rodeado de bananeiras, inhames e figueiras», mas já muito degradado.

Na freguesia de Marmelete foram registados vários moinhos, que acabaram por dar origem aos topónimos locais, como Moinho de Cima, Moinho do Passil, Moinho do Chilrão, Moinho do Pomarinho, Moinho da Ribeira Brava, entre outros.

Atualmente, existe o Moinho de Água do Poucochinho, situado no Barranco dos Pisões, que é o único a laborar no concelho, mas com objetivos puramente didáticos e de animação turística e cultural, após ter sido recuperado pela Junta de Freguesia de Monchique, com apoio de fundos comunitários.

 

 

Bibliografia:

VV.AA (s.d). «Um percurso histórico, um património a valorizar – II Jornadas de Monchique, 5 e 6 de outubro de 2001», Comissão Instaladora do Museu de Monchique/Junta de Freguesia de Monchique, Monchique;

CARNEIRO, Isabel, CAMPOS, Nuno (2003). «O Concelho de Monchique e as Suas Armas Municipais – Da Perspectiva Histórico-Sociológica à Perspectiva Heráldica», Comissão Instaladora do Museu de Monchique/Junta de Freguesia de Monchique, Monchique;

CARVALHO, Augusto da Silva (1939). «Memória das Caldas de Monchique», Edição da Comissão Administrativa das Caldas de Monchique, Lisboa;

GASCON, José António Guerreiro (1993). «Subsídios para a Monografia de Monchique», 2.ª edição (facsimilada), Algarve em Foco Editora, Faro;

GUERREIRO, Manuel Viegas, MAGALHÃES, Joaquim Romero, “Duas Descrições do Algarve do Século XVI” in Cadernos da Revista de História Económica e Social, nº3, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1983;

LOPES, João Batista da Silva (1988). «Corografia ou Memória Económica, Estadística e Topográfica do Reino do Algarve», 1º Volume, Algarve em Foco Editora, Faro

SAMPAIO, José Rosa (2010). «Engenhos Tradicionais de Moagem do Concelho de Monchique», Junta de Freguesia de Monchique/Associação Cultural Memo, Monchique.

 

Jornal de Monchique (edição de 15/06/1987 e edição n.º 172, de 24/06/1999)

Memórias Paroquiais de 1758

 

 

Sabe como funciona um moinho de rodízio?

Os moinhos de rodízio são assim designados por possuírem uma roda motriz horizontal, o rodízio. Este tipo de moinho é construído em dois pisos, o piso de moagem, e uma pequena cave situada ao nível da saída de água, onde trabalha o rodízio.

A água é desviada da ribeira para a represa e por essa direcionada para o cubo. Na parte terminal desse, encontra-se a seteira, que é por onde a água sai, em pressão suficiente que, ao bater nas penas do rodízio, vai fazer com que esse comece a mover-se. Esse movimento é transmitido, através do veio e da pela, ao piso de cima, onde se encontra o mecanismo de moagem, composto por uma mó fixa (o pouso) e uma mó giratória (a andadeira).

Sobre a Mó Andadeira (ou Mó de Cima) é instalada uma caixa (a Moega) na qual são colocados os grãos de cereal, que vão caindo no olho da Mó Andadeira consoante a regulação desejada pelo moleiro. (Figura 2).

 

Figura 2 – Corte esquemático de um moinho de rodízio.

 

Elementos de um moinho de rodízio:

Andadeira ou Mó de cima – Mó com um orifício (olho) no centro, realiza o movimento rotativo.

Pouso ou Mó de Baixo – Mó inferior que permanece fixa.

Moega – Caixa onde é colocado o cereal para moer.

Quelha – Calha ligada á Moega, por onde corre o cereal para o olho da mó.

Chamadouro – Acessório fixo à Quelha apoiado na Mó Andadeira, cuja trepidação faz o cereal correr da Quelha para o olho da mó.

Segurelha – Peça que se encaixa num rasgo da Mó Andadeira, ligando esta ao Rodízio através do Veio e da Pela. Tem como objetivo evitar que a mó superior encoste à inferior.

Veio – Elemento que prolonga a Segurelha, ligando-a à Pela.

Pela – Peça de ligação entre o veio e o rodízio.

Lobete – Peça em forma de cone, que prolonga a Pela; é regulável por duas cunhas de madeira, sendo que na extremidade superior encaixa o veio.

Agulha – Peça que tem uma extremidade presa ao Urreiro e outra ao piso superior, permitindo subir ou descer o moinho, ou seja, a Mó de Cima;

Rodízio – Roda composta por várias penas (travessas) dispostas radialmente.

Cubo – Canal que conduz a água até à roda motriz.

Seteira – Orifício de saída da água na extremidade do Cubo, orientado para atingir o Rodízio.

Aleviadouro – Peça ligada ao Urreiro, que permite regular a distância entre as mós.

Urreiro – Trave de madeira colocado no solo, com um topo fixo e o outro ligado ao Aleviadouro.

 

Telhedouro – dispositivo manual de paragem do moinho, constituído por um arame ligado à extremidade de uma tábua que, quando é solta, baixa e desvia a água do rodízio, interrompendo o movimento da Mó de Cima.