Santo André

 Nascido em Betsaida – povoação de pescadores a nordeste do Mar da Galileia – no ano 5 a.C., Santo André foi um dos doze apóstolos de Jesus Cristo. Filho de Jonas, pescador local, e irmão de Pedro, também conhecido como Simão e igualmente pescador, André foi, segundo as Escrituras, o primeiro a ser escolhido como discípulo de Jesus.

Enquanto seguidor de João Batista, foi através dele que André ouviu proclamar Jesus como “o Cordeiro de Deus”, palavras que o fizeram seguir Jesus Cristo, juntamente com outro discípulo que não é mencionado. Segundo o Evangelho de São João, capítulo 1, versículos 38 – 39, Cristo apercebendo-se que estava a ser seguido voltou-se para eles e perguntou «Que estais procurando?»; eles responderam «Rabi (que quer dizer Mestre), onde moras?» e Jesus replicou dizendo «Vinde e vede». Ambos foram ver onde Jesus morava e «ficaram com Ele nesse dia. Era cerca da hora décima». No mesmo capítulo, versículos 41 – 42, somos informados que após este encontro, André foi «logo à procura do seu irmão e disse-lhe: Achámos o Messias (que quer dizer Cristo)» e levou-o até Jesus, que «fixando nele o olhar, disse: Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)». O Evangelho de São Mateus, capítulo 4, versículos 18 – 20, acrescenta que Jesus ao caminhar «ao longo do mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão (chamado Pedro) e André, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores», tendo lhes dito «Vinde após mim e vos farei pescadores de homens». Ambos deixaram tudo para trás e começaram a seguir Jesus.

Conforme se pode perceber a partir destas narrações, André foi um dos primeiros  apóstolos a ser escolhido para seguir o Messias. Atente-se que o nome André é grego e não judeu, que  significa viril (ανδρεία, andreía = hombridade ou coragem), a par do seu apelido de tradição ortodoxa que é «Protóklitos», que significa precisamente: «primeiro chamado».

Nos Evangelhos, André é mencionado como um dos discípulos mais próximos de Jesus, estando presente em diversas ocasiões de maior importância. Um deles é o milagre da multiplicação dos pães na Galileia, pois foi ele que, no meio da multidão disse a Jesus «Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes… mas que é isto para tanta gente?», tendo Aquele os tornado suficientes para as pessoas que O foram ouvir. (Jo. 6. 9 e11). Um segundo momento decorreu em Jerusalém e está relacionado com a destruição do templo ou o discurso escatológico, em que André,  o seu irmão Pedro, Tiago e João ao saírem  de um edifício naquela cidade foram alertados por Jesus que «não se deixará pedra sobre pedra que não seja demolida», em alusão às últimas coisas que vão acontecer no fim dos tempos. (Mc, 13, 1-5). Uma outra situação que reflete a grande proximidade deste discípulo com Jesus tem lugar também em Jerusalém e refere-se ao momento em que André e Filipe, por terem nomes gregos, terem servido como intérpretes e mediadores de um grupo de gregos que participou na última festa da Páscoa, ocorrida antes da Paixão. (Jo, 12, 20 – 22).

André foi martirizado e crucificado durante o reinado do imperador Nero, a 30 de novembro de ano incerto, na cidade de Patras, capital de Acaia, na Grécia. Por julgar indigno ser crucificado no mesmo tipo de cruz em que Cristo o fora, André pediu para ser pregado numa cruz em aspa (de braços oblíquos), em forma de X, que os latinos chamavam «crux decussata», a qual é o elemento principal da sua iconografia.

As gafarias eram os hospitais destinados aos leprosos que, regra geral, funcionavam próximo de albergarias. Em algumas regiões do Reino de Portugal, quando aquelas e outras instituições assistenciais não existiam, as gafarias também serviam de abrigo a peregrinos e merceeiros (designação de quem obtinha mercê de abrigo na comunidade). De acordo com Ismael Tinoco, de entre as várias dependências de que disponha uma gafaria encontrava-se uma capela para o apoio religioso dos doentes, que na sua maioria tinha São Lázaro como padroeiro, embora se encontrem «outros santos associados aos gafos do reino, como Santo André».

Em Monchique não se encontraram evidências quanto à existência de uma gafaria ou espaço de acolhimento para leprosos, mas sabe-se de uma ermida com invocação a este santo, tendo em conta os documentos dos séculos XVIII e XIX que lhe fazem referência. Uma das primeiras surge a 7 de junho de 1754 aquando da visitação do Bispo D. Lourenço de Santa Maria e quatro anos depois, as Memórias Paroquiais de 1758 informam que este foi um dos templos que «padeceu ruína» pelo terramoto de 1755. À semelhança de outras ermidas da vila, também a de Santo André terá perdido o uso litúrgico após a Revolução Liberal de 1820.

Segundo José Gascon, o edifício «formava como o ápice das casarias da vila, indolentemente recostada em divã sobre o luxuriante flanco da Foia, cuja entrada, por este lado, vistosamente guardava». No primeiro quartel do século XX, ainda «se erguiam as ruínas», as quais ficaram «depois desfeitas, restando apenas a parede do norte». Ainda são visíveis alguns vestígios deste edifício, mas atualmente situados no interior de uma propriedade privada.

A imagem de Santo André, em exposição no polo museológico de Arte Sacra, é feita em madeira policromada, tem as dimensões 92 cm x 34 cm e data do século XVII. Do ponto de vista iconográfico, a imagem destaca-se pela presença de um livro que o santo segura na mão esquerda, em sentido horizontal, em alusão ao Evangelho e pela «aspa, seu instrumento de suplício», a cruz em forma de X, que já não é visível. Porém, dadas as mutilações que a figura apresenta no lado direito, acredita-se que aquela estaria pregada longitudinalmente nesse mesmo flanco.

De acordo com José Gascon, o paramento atribuído a esta ermida é feito em «damasco antigo, com os galões também vermelhos» e pelo menos até à primeira metade do século XX estava guardado na Igreja Matriz, embora não tenho sido possível localizá-lo.

 

 

Bibliografia: 

 

GASCON, José António Guerreiro (1993). «Subsídios para a Monografia de Monchique», 2.ª edição (facsimilada), Algarve em Foco Editora, Faro;

 

LAMEIRA, Francisco I. C. (1997). «Inventário Artístico do Algarve. A Talha e a Imaginária. XIV – Concelho de Monchique», Ministério da Cultura, Delegação Regional do Algarve, Faro;

 

SAMPAIO, José Rosa  (2008). «Antigas Igrejas e Conventos do Concelho de Monchique», edição de autor, Monchique;

 

TINOCO, Ismael (2016). «Por uma história dos leprosos em Portugal para além da lepra (sécs. XIII-XV), dissertação de mestrado para a obtenção do grau de Mestre em História, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituição de História.

 

«André, o Protóklitos» Santa Sé, Papa Bento XVI, Audiência Geral de 14 de junho de 2006, disponível em: http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2006/documents/hf_ben-xvi_aud_20060614.html (visualizado a 27 de agosto de 2020)

 

Bíblia Online, versão católica, Novo Testamento, disponível https://www.bibliaonline.com.br/vc/index (visualizado a 2 de setembro de 2020).

 

 

 

 

Elaborado por: Ana Mateus